quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O ANTI-SEMITISMO, A CONVICÇÃO TEÓRICA RELIGIOSA E SUAS IMPLICAÇÕES SOCIAIS

O ANTI-SEMITISMO, A CONVICÇÃO TEÓRICA RELIGIOSA E SUAS IMPLICAÇÕES SOCIAIS


Francisco Sepe da Costa





RESUMO



O anti-semitismo está vinculado à convicção religiosa do povo judeu implicando situações antagonistas no ambiente social, político e econômico.



PALVRAS-CHAVE

Anti-semitismo, convicção religiosa, procrastinação



INTRODUÇÃO

O tratamento que o mundo dá ao anti-semitismo expõe a imobilidade da sociedade mundial em solucionar qualquer tipo de segregação. Imobilidade que gera conflitos e oportunidade de atuação de inescrupulosos.



DESENVOLVIMENTO



O anti-semitismo foi escolhido por ser um fator social, que vem desde a antiguidade, quando o povo judeu, recebendo os ensinamentos de Moises, ficaram convictos religiosamente da sua eleição por Deus com o conseqüente aparecimento de um sentimento exaltado de superioridade a outros povos, relacionado ainda com seus ritos particulares, como a circuncisão e a terra prometida, fatores de geração de conflitos político, social e econômico até os dias atuais.



A convicção religiosa dos judeus é uma teoria que não pode ser confirmada, porém é internalizada como convicção devido ao bem estar deste sentimento exaltado por ser um povo escolhido e o prazer de imaginar que terão uma terra prometida por Deus a Abraão. Convicção religiosa, que talvez seja o sentimento oceânico, refutado por Freud, expresso por seu amigo no texto o mal-estar na civilização .



Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A “unidade com o universo”, que constitui seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. Permitam admitir mais uma vez que para mim é muito difícil trabalhar com essas quantidades quase intangíveis .



Como disse o professor Vladimir, no que diz respeito à análise do político, esta perspectiva freudiana nos exige deslocarmos o foco da análise, das regras que pretensamente estruturam a vida social às fantasias que realmente sustentam tais regras. Isto talvez nos explique porque temos tanta dificuldade em explicar como, no interior de nossas sociedades democráticas liberais, encontramos a recorrência contínua de figuras de autoridade e liderança que parecem se alimentar de fantasias arcaicas de segurança, proteção e de medo (a lista atual é longa e passa pela instrumentalização política da islamofobia, do anti-semitismo e do medo do terrorismo) .



A sensação de proteção e segurança desta convicção religiosa do povo judeu, ainda que teórica, provoca ações reações sociais, políticas, econômicas, nacionais, além da religiosa, no povo judeu e nos outros povos que interagem com ele de maneira direta ou indireta, promovendo uma ambivalência de amar e odiar os judeus. No ódio há a hostilidade aos judeus que é o anti-semitismo.



A principal característica da constelação psicológica que dessa forma se torna fixa é algo que poderia ser descrito como a atitude ambivalente do sujeito para com um objeto determinado, ou melhor, para com um ato em conexão com esse objeto. Ele deseja constantemente realizar esse ato (o tocar) e também o detesta .



Nesta convicção religiosa os judeus se isolaram nas suas convicções e adquiriram a antipatia gratuita de outros povos. Outros povos que a exemplo dos mulçumanos têm a mesma convicção teórica religiosa, descendendo do elo comum chamado Abraão, cuja descendência, Ismael e Isaque, figuras que viveram na antiga região da Palestina, deram origem aos povos distintos, judeus e árabes.



Convictos religiosamente: os judeus com Jeová e os árabes com Alá.



Após Abraão, Moises estabelece a religião monoteísta, o ritual da circuncisão, a proibição de fazer imagem de Jeová, tudo isto, inserido na certeza de ser o povo escolhido por Deus e a segurança de habitar na terra prometida por Deus a Abraão, cria uma convicção religiosa de maneira teórica que leva o povo a uma auto estima muito elevada, e um sentimento superior a outros povos, no encantamento de serem o povo escolhido.



Esta convicção cria um fato social não só para os judeus, bem como para os outros povos em sua convivência com os judeus, quer sejam vizinhos, quer como inseridos na sociedade de outros povos como estrangeiros.



Este fato social remota a antiguidade dos tempos bíblicos, nas guerras, pela conquista da terra prometida por Deus a Abraão; empreendidas principalmente pelo rei Davi, passa pela era medieval, na relação com as instituições religiosas, no século XX pelo sistema nazista e no século XXI, como escudeiro dos Estados Unidos da América no Oriente Médio, desde a implantação do estado de Israel, na região da palestina, por uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948.



O estabelecimento de Israel no lugar, que estão convictos que é a terra prometida por Deus a Abraão, implicou em insatisfação dos povos que também ocupavam a chamada Palestina, evidenciando o anti-semitismo.



Esse fato se torna especialmente claro quanto o Destino é encarado segundo o sentido estritamente religioso de nada mais ser do que uma expressão da Vontade Divina. O povo de Israel acreditava ser o filho de Deus e, quando o grande Pai fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo, jamais a crença em Seu relacionamento com eles se abalou, nem o Seu poder ou justiça foi posto em dúvida. Pelo contrario, foi então que surgiram os profetas, que apontaram a pecaminosidade desse povo, e, de seu sentimento de culpa, criaram-se os mandamentos superestritos de sua religião sacerdotal .



Todavia, este estabelecimento tem permitido a conversação entre os moradores desta região, o Oriente Médio, em busca de paz e talvez a diminuição do sentimento anti-semitismo ou outro sentimento de hostilidade.



O estabelecimento do povo judeu na antiga Palestina, banhada pelo mar Mediterrâneo, foi realizada por muitas lutas e guerras aos povos que já estavam ocupando o local, mas a sua convicção religiosa o levava a agir com a certeza de estar fazendo a coisa correta.



O retorno dos judeus em 1948 relembra a chegada dos judeus a palestina na época mosaica também com guerras e expulsões dos povos que ali habitavam. Vencidos os povos, o sistema sócio-político passou de juizes para o reinado, elegendo o primeiro rei chamado Saul.



Israel era o nome do filho de Isaque, filho de Abraão, que se chamava Jacó. O nome de Jacó foi mudado para Israel quando numa visão na qual Jacó lutava com um anjo e este mudou o seu nome para Israel, numa escada que subia ao céu, segundo o relato bíblico.



No reinado de Davi, Israel conquistou toda a terra limitada pela promessa da terra prometida por Deus a Abraão. Seu filho Salomão, por falta de governabilidade política, permitiu a divisão de Israel em dois reinos, norte e sul, porém, promoveu um grande desenvolvimento social e econômico, tendo como referencial, o templo de Salomão. Com a construção do templo de Salomão foi possível concretizar a convicção religiosa do povo judeu nos seus ritos, cultos, festas e cerimônias mosaicas.



Os judeus mantêm ainda hoje toda esta tradição, porém numa forma diferenciada de comemorar, pois não existe mais o templo construído por Salomão, somente as ruínas das muralhas do templo como testemunhas deste período suntuoso do reinado de Salomão e que mantém aceso o ideal de reconstruí-lo no mesmo local primitivo, principalmente por parte dos judeus ortodoxos.



Do reinado de Salomão, com o enfraquecimento devido à divisão em dois reinos, Israel foi invadido pelos babilônicos os quais destruíram o símbolo da convicção religiosa, o templo de Salomão, promovendo assim a diáspora, que é a fuga dos judeus para diversos lugares do mundo, mantendo a sua convicção religiosa por longos anos e o propósito de retornar a terra prometida.



Os judeus estabeleceram o hebraico, como língua oficial de Israel, para poderem ler as ordenanças mosaicas no texto original despertados por esta convicção religiosa e sua tradição.



A análise do anti-semitismo, neste ambiente teórico, objetivando levantar hipóteses, proporá a seguinte metáfora, elaborada por mim: Que todos nascem pedra com quinas. O bebê pedra, por instinto, nasce rolando, e rolando, aparará as arestas das quinas. Então, este instinto de rolar, que traz prazer e dor ao mesmo tempo, será uma atividade, também, das pedras adultas, até atingir a forma redonda. Assim, mantendo a cultura do rolamento iniciada no primeiro bebê pedra.



O prazer seria por rolar e ficar livres das quinas e, a dor seria, pela retirada das arestas das quinas, ao rolar. No rolamento, a pedra seria aplanada e arredondada. O rolamento acontecerá em terrenos diferentes, áspero ou liso, ondulado ou plano.



Assim, alguma pedra, devido ao tipo do terreno em que nasceu e ao tempo de rolamento, ficaria achatada, outra, conforme a sua “sorte” ou “destino” e o tipo de terreno e ao tempo de rolamento, ficaria arredondada.



O ficar com menos quinas e mais redonda é o ideal a ser perseguido, e será, o que determinará a relação social entre as pedras. Quanto mais redonda, maior a liderança e a interação social. Com a forma totalmente redonda, as pedras poderiam rolar livremente, agora sem dor, só com o prazer de rolar, se isto for possível.



Freud agia como quem acredita que a integralidade dos processos de interação social sempre se reporta a um princípio único e soberano de poder .



Algumas pedras não rolariam, com receio do tipo de terreno, apesar do seu instinto instigá-las a rolar, nas permanecem inativas, oprimidas, inibidas e desencantadas, podendo haver outros tipos de receios.



Dessa metáfora, talvez, desenvolver-se-ia uma teoria psicanalítica.



E pensando assim, há muito a considerar nessa teoria psicanalítica, tais como, os tipos de pedras com sua dureza, tenacidade e formação geológica; e as características dos terrenos: úmidos, secos, planície, planaltos, vales, rios, mares, pelos quais, as pedras rolariam.



Talvez seja interessante fazer uma análise do comportamento das pedras no rolamento e durante as perdas das quinas e arestas em relação às variações do tempo e espaço.



A análise do comportamento das pedras no rolamento e durante as perdas das quinas e arestas em relação às variações do tempo e espaço será feita considerando a pedra como o anti-semitismo, assim como poderíamos considerar qualquer atitude de hostilidade a qualquer etnia, crença, cultura ou minoria.



Dessa forma, a análise passa pelo o tratamento que é dado não só ao anti-semitismo, mas também a outros tipos de atitude que queira segregar uma minoria.



O tempo e o espaço, com suas variações, permitem aferir, quando as arestas e quinas são aparadas. Nessa perspectiva, o tempo, com a seu passar e “paciência”, é capaz de promover mudanças sociais inimagináveis, e o espaço, com seus acontecimentos, é capaz de moldar em relação à outra, a mais rígida convicção.



O terreno onde a pedra vai rolar seria o mundo moderno e globalizado.



As quinas e arestas, que se aventavam para justificar a hostilidade, eram na idade média, a religiosa e na época do nazismo no século XX, uma pretensa doutrina científica, todas aparadas nas alterações sociais no tempo e no espaço.



Talvez, por hipótese, seja interessante neste rolamento, verificar as quinas e arestas das pedras do interesse econômico, político e social da relação dos judeus e palestinos no Oriente Médio.



Possivelmente, outras hipóteses, a pedra burca francesa como também as pedras africanas que, talvez hesitem em rolar, não com receio do tipo terreno de rolamento, mas por não terem nem mesmo o terreno onde rolarem pela falta de interesse que possibilite que estas pedras se arredondem.



Em todas estas hipóteses, o ponto comum é a procrastinação. A procrastinação crônica pode ser um sinal de alguma desordem psicológica ou fisiológica .



Penso que pode ser o sintoma do terreno considerado nesta metáfora.



Talvez, após o rolamento, agora, redondas, as pedras estejam mais livres para rolar, objetivando uma melhor socialização, perscrutando qual o limiar das convivências pacificas e do bem estar social.



Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, o lema das pedras será: “rolar é preciso, durar não é preciso”.



CONCLUSÃO



Qualquer tipo de segregação é inadmissível. Aquele que segrega e os que são segregados devem promover soluções no campo social, político e econômico perscrutando qual o limiar das convivências pacíficas e do bem estar social.



REFERÊNCIAS



SAFATLE, Vladimir. Freud como teórico da modernização bloqueada. 2010.



_______________. A psicologia das massas: regras e fantasias. 2010.



FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e a análise do eu. 1921.



______________. O mal-estar na civilização. 1929.



______________. Totem e tabu. 1913.



A Bíblia.





















Um comentário:

  1. Sepe, senti falta das referências ao longo do texto. Você só listou ao final. E a metáfora da pedra com quina pode render uma boa crônica.

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