PROFº. VLADIMIR SAFATLE
NOME: ALESSANDRO DA SILVA GUIMARÃES
INTRODUÇÃO
De acordo com dados e pesquisas estatísticas, o número de evangélicos vem crescendo de forma acelerada e extraordinária no Brasil, confirmando algumas hipóteses que alguns cientistas sociais que estudam o fenômeno da religião já haviam elaborado há duas décadas. O que os dados estatísticos do IBGE não conseguem revelar, todavia, acaba se evidenciando nas pesquisas sociológicas e antropológicas, que são os reflexos desse processo de conversão religiosa na transformação das condutas e dos modos de ser dos fiéis. E essa mudança envolve toda forma de relação dessas pessoas com a sociedade, com a cultura e com a própria política. Grande prova disso foi o processo de eleição presidencial que estamos vivendo e que desvelou toda marca religiosa sempre tão presente no imaginário coletivo do brasileiro e que agora ganha uma nova roupagem, articulando-se explicitamente com aquela instância que deveria a priori ser um espaço laico: o estado democrático racional moderno.
Como nos coloca o professor Vladimir Safatler, o éthos é um modo de ser que nos remete a uma ética. Trata-se da incorporação de determinados princípios éticos, produzidos por meio de dinâmicas sócio-culturais, que, por conseguinte, irão produzir ações e atitudes que repercutirão nas relações entre as pessoas e destas para com o mundo, tal como demonstrou Weber em sua famosa obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Como a ética aqui está diretamente ligada à cultura e a sociedade podemos pensar que seu espaço pretensamente racional não está desconexo de toda uma cadeia de desejos e representações sociais e coletivas que dão movimento as relações que criamos e recriamos em nossa existência social. Desse modo, os comportamentos e valores que se desenharam nesse processo eleitoral estão estreitamente ligados as novas semânticas vivenciais que estão ligadas a forças religiosas que são um dos fundamentos desses novos princípios éticos – que nem são tão novos assim – que estão reconfigurando o jogo político.
Dentre as cenas que chamam a atenção nessa eleição para presidente podemos destacar: a) a força das igrejas e grupos religiosos na definição dos votos de seus fiéis; b) a consciência dos candidatos desse processo, acompanhado do posterior uso político dessas forças por parte dos candidatos através de alianças e debates morais. Polêmicas como o aborto e a união entre pessoas do mesmo sexo passaram a canalizar todo o debate, acompanhado de denúncias e uso político e eleitoreiro de questões morais que ainda encontram resistência em uma sociedade que ainda traz marcas patriarcais e conservadoras como a sociedade brasileira.
DESENVOLVIMENTO
Ao negarem os princípios laicos e racionais que fundamentaram o Estado racional moderno, produzindo assim um comportamento diferenciado em relação padrão de escolha racional, não estaria o comportamento dessas pessoas apontando para um modo de ser e sentir que está enraizado em nossa cultura e que, portanto, motiva nossas ações e modos de pensar que balizam desde nossas ações mais íntimas até mesmo as decisões da res pública? Essa forma de política aqui, portanto, parece estar apontando para uma prática muito mais comum do que se imagina. Como aponta o professor Vladimir Safatler devemos pensar de que maneira o indivíduo cria disposições de comportamentos e modos de conduta que são internalizações das próprias exigências sociais. Desse modo, como ele desenvolve essas condutas? Que exigências sociais estão por detrás desses posicionamentos? Como uma teoria social Freudiana pode nos apontar que sentimentos tão subjetivos tem relações diretas com nossa constituição como sujeitos sociais e culturais?
Para o professor Vladimir a solidez dos laços sociais se dá a partir daquilo que o próprio Lacan denominou de reconhecimento. Eu entro no jogo social em busca desse reconhecimento – me fazer reconhecer em meus projetos, minhas realizações, minhas fantasias e desejos. Nesse sentido, a base da vida social estaria alicerçada no reconhecimento do próprio desejo do sujeito – desejo de ser e ser reconhecido como tal. Nesse processo um dos mecanismos de ligação entre pessoas e grupos se dá a partir do que Freud chama de identificação. Como Freud coloca em psicologia das massas “a identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na história primitiva do complexo de Édipo” (PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EU, página 41). Ao falar da relação entre a política fascista e o processo de identificação, Adorno nos faz ver que “o mecanismo que transforma a libido na ligação entre líder e seguidores, e entre os próprios seguidores é o da identificação” (ADORNO, página 09).
Por tudo isso, afirmamos que podemos pensar que, no caso das eleições brasileiras, o debate político se focou em questões morais (como o aborto) e teológicas (os candidatos são cristãos de fato? Acreditam na existência de Deus? – não o Deus imanente de Hegel ou Spinoza, mas o Deus transcendente encarnado na representação judaico-cristã que formou boa parte dos padrões morais do mundo ocidental) pelo fato de os candidatos buscarem, a qualquer preço, criar um laço de identificação para com seus possíveis eleitores. Desse modo fica claro que as escolhas políticas, nessa conjuntura instaurada, está alicerçada por um processo afetivo que liga minha fé mais íntima aos pressupostos da própria ação política. Ao explicar a gênese do processo de identificação Freud nos apresenta três fontes que resumem tal processo e que assim podem ser explicadas: “primeiro, a identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto; segundo, de maneira regressiva, ela se torna sucedâneo para uma vinculação de objeto libidinal, por assim dizer, por meio de introjeção do objeto no ego; e terceiro, pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto de instinto sexual” (PSICOLOGIA DAS MASSAS, página 45). As imagens que repercutiram nos grandes meios de comunicação de massa da candidata Dilma Rousseff freqüentando missas e do candidato José Serra beijando um terço em meio a uma multidão, além dos inúmeros encontros de ambos os candidatos com grupos de evangélicos para discutirem propostas de campanha, mostram claramente a busca por essa identificação tão própria que é constituída nos meios religiosos. Destaque aqui também para a candidata Marina Silva, grande revelação do primeiro turno das eleições e que era uma candidata evangélica praticante pertencente ao grupo pentecostal. Ficou claro o processo de identificação que ela conseguiu dos eleitores evangélicos, tanto é que na busca por esses eleitores, já no segundo turno, os dois outros candidatos lançam mão de construir uma imagem cada vez mais ligada aos princípios cristãos, mesmo que isso possa ser interpretado como uma mera teatralização.
Como dirá Freud “todo cristão ama Cristo como seu ideal e sente-se unido a todos os outros cristãos pelo vínculo da identificação. Mas a igreja exige mais dele. Tem de identificar-se com Cristo e amar todos os outros cristãos como cristo os amou” (PSICOLOGIA DAS MASSAS, página). Nesse aspecto, o próprio Freud afirma que o novo desenvolvimento na distribuição libidinal presente no grupo “constitui provavelmente o fator sobre o qual o cristianismo baseia sua alegação de haver atingido um nível ético mais elevado” (PSICOLOGIA DAS MASSAS, página 76). Tendo em vista a função libidinal que se reveste a própria noção de autoridade, para que esse reconhecimento de autoridade – baseada em princípios “é ticos superiores” – tivesse um reconhecimento de fato numa sociedade mais fortemente religiosa, vendo na mesma uma busca para seus problemas, esse mesmo reconhecimento partira, em um movimento eminentemente social, para os desejos e fantasias ligados a fé mais íntima de seus eleitores, fazendo-se valer dessa força religiosa que está impregnada no inconsciente da maior parte dos brasileiros como já foi mostrado por inúmeros estudos sociológicos. Deveríamos buscar assim uma gênese dessa força que nos arrasta?
Poderíamos afirmar, talvez, que, em uma sociedade escravocrata e baseada nos princípios da desigualdade, a religião poderia ter tanto uma função ideológica quanto uma função protetora, entendo proteção aqui no sentido de buscar segurança em algo, seja esse algo mesmo uma mera fantasia ou desejo de transcendência. Freud já nos dizia que “A quantidade de proteção e de satisfação destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das exigências éticas; seu amor a Deus e a consciência de ser amado por Deus são os fundamentos da segurança que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu ambiente humano” (A QUESTÃO DE UMA WELTANSCHAUUNG, página 06). Talvez na busca por essa segurança, por motivos ligados talvez até na descrença de uma política no âmbito racional (com tantas denuncias de corrupção que se espalham nos meios de comunicação) busca-se uma segurança alicerçada no desejo coletivo do grande cristão como líder ideal. Afinal, Cristo nos ensinou a sermos verdadeiros, a sermos irmãos, a compartilharmos uns com os outros. Numa realidade na qual as pessoas cada vez mais estão em um processo de desencantamento com as estruturas políticas torna-se o terreno propício para a espera do grande Messias e, se essa possibilidade não existe, pelo menos de alguém que se aproxime ao máximo dos princípios éticos desse suposto Messias. Interessante entender aqui como essa figura, ou pelo menos as características que deverá ter, passa de alguma forma a ser transposta diretamente de bases religiosas, nem sempre verdadeiras de fato, mas ao menos aparentando sê-la. Outra prova forte disso é o número considerável de senadores e deputados, que compõe a chamada bancada evangélica, que são eleitos a partir dessa conjuntura.
Outra idéia fundamental que pode ser analisada aqui é a figura do desamparo trabalhada pelo professor Vladimir Safatle. Segundo ele os princípios éticos construídos a partir de uma fundamentação religiosa se constituem a partir da ruptura entre homem e natureza. Dessa forma “o desamparo aparece enquanto consciência da desintegração da possibilidade de apreensão do sentido como totalidade de relações” (SAFATLE, p. 19). Inclusive podemos pensar a figura do desamparo, tal como aponta Freud, vinculada ao próprio processo de modernização e a um possível fracasso de suas promessas de desenvolvimento e progresso (pensando aqui, naturalmente, a religiosidade contemporânea no Brasil e suas conseqüências no âmbito político e sociocultural). Diante de promessas não cumpridas e dos sofrimentos causados por ela parece haver contemporaneamente um retorno de um substituto tão próximo do Pai – ou seja, Deus. Esse Deus que vem nos consolar do desamparo moderno, todavia, veste-se de uma roupagem aparentemente nova – o Estado. Naturalmente recorrendo à história podemos verificar que Estado e religião estiveram, em grande parte dela, caminhando muito conjuntamente. Isso nos permite pensar: será que, de fato, vivemos a idéia de desenvolvimento na história (no sentido positivo da modernidade) ou recorremos a novas nuances e conjunturas para velhas práticas?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por tudo isso que colocamos podemos pensar aqui uma questão fundamental da qual várias outras questões podem surgir: será que o processo de desencantamento político promovido em nossas relações sociais (desencantamento operado a partir da quebra das estruturas e princípios fundamentais que regem o Estado moderno – democracia, impessoalidade, transparência, etc.) tem produzido uma nova força que confunde político e religioso – tendo em vista que nesse último se encontraria nosso éthos primordial, tendo em vista vivermos em uma sociedade altamente religiosa? Podemos pensar aqui que a ciência (e penso o Estado racional moderno nasce com um desenvolvimento que se deu ao lado do desenvolvimento racional e científico, em contraposição ao religiosidade e a nobreza) não cumpriu, pelo menos na sociedade brasileira (para nos delimitarmos geograficamente e historicamente) suas promessas de emancipação social. Encontramo-nos aqui sob a perspectiva daquilo que o professor Vladimir chama de modernidade bloqueada. A visão científica do mundo não se desenvolve de fato na realidade política e social que vivemos. A chama das luzes foi ofuscada e mesmo apagada muitas vezes pelas relações de poder que aí se configuraram e não levaram em conta princípios como da justiça e da igualdade. Como o próprio Freud deixa claro a idéia de modernidade fornecida pela ciência não chega a vida social. Permanece enquanto promessa não cumprida. Se essa “emancipação racional” não foi possível, todavia, é interessante compreendermos como ela tem sido ressignificada em nossa sociedade e, em especial, em nossas relações políticas.
Outro fato que o professor Vladimir nos evoca a pensar, e que está ligado a questão acima, é que vivemos numa sociedade que se auto representa de forma catastrófica – as luzes iluministas, hoje mais do que nunca, parecem hoje estar se apagando. Assuntos como violência, drogas e corrupção parecem dominar os assuntos cotidianos e são acompanhados geralmente por uma falta de perspectivas terrenas para resolvê-los. Desse modo, entra aqui a figura transcendental: só Deus para resolver isso, dirá o cidadão comum dentro do ônibus ou na fila do supermercado. A depressão e o pânico coletivo vão aos poucos se enraizando na vida pessoas próximas a nós, isso quando não se enraízam em nós mesmos. Algumas soluções começam a apontar, entre elas os produtos da indústria farmacêutica – que não vai as causas, mas alivia os sintomas – e a busca cada vez mais intensa pelo transcendente, caminho que pode apontar para a felicidade eterna, mesmo que, como dirá alguns críticos, sirva apenas de anestésico para aliviar ou nos fazer esquecer do sofrimento cotidiano que dói tanto em nosso ser. Por isso ao pensarmos o jogo político que está há algum tempo se configurando em nossa sociedade não podemos pensá-lo separado de toda articulação que ele tem com questões culturais, históricas, psíquicas ou mesmo ontológicas. Se a psicanálise não nasce dissociada dos laços sociais – que Freud sempre deu grande importância em suas análises – devemos pensar como esses mesmos laços tem sido ressignificados em nossas relações, seja pelas novas demandas que são trazidas, seja pelas demandas não cumpridas e que acabam, pela própria necessidade de segurança psíquica e ontológica que temos, sendo substituídas por outras instancias – a política pela religião, por exemplo, criando muitas vezes uma realidade confusa que deve ser compreendida em toda sua complexidade.
REFERÊNCIAS
ADORNO. Teoria Freudiana e o padrão da propaganda fascista.
FREUD, SIGMUND. PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EU.
_______________. A QUESTÃO DE UMA WELTANSCHAUUNG.
SAFATLE, VLADIMIR. APOSTILA DO MÓDULO: FREUD COMO TEÓRICO DA MODERNIDADE.
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