Quando escutei pela primeira vez a música Ideologia do Cazuza, não entendia o que se passava comigo para além dos tons musicais que me careciam em rock. Minha professora de português do Ensino Médio gostava muito de apresentar-nos os por menores que a Ditadura queria esconder. Era o Cálice em cale-se. Era a Roda Viva. Era o Confia em mim no FMI. Era o mostra a sua cara, e a piscina cheia de ratos. Enfim era a tal da Ideologia me martelando, me tocando, me puxando para tons de vermelho que certo Getúlio colocou na cabeça de minha avó ser praga certa que me colocaria dentro do carro preto. A tal da Ideologia capitalista que me enganará com seus comerciais marketeiros e me imputara a égide do consumo.
Comecei a ver um mundo completamente diferente depois que conheci Marx. Não faço aqui aquelas apologias apaixonadas, como que defendendo uma teoria, estaria defendendo uma banda de rock e usando as camisas identitárias como segunda pele. Mas sim, aprendi muito com a luta dos outros, em um tempo de tão poucas lutas e certa apatia desajeitada no ar. E mesmo consumindo os produtos do capitalismo consigo ver de uma forma mais responsável aquilo que me cerca. E neste ver melhor, ainda míope é bem verdade, lutar por certos ideais como a solidariedade, e assim a distribuição mais igualitária de comida, bebida, pasto, postos de serviço, terra, justiça e, quiçá, senhor Newton Duarte, de um pouco de conhecimento.
Sempre fui um crítico assíduo de certas pedagogias, principalmente aquelas que mexiam com as minhas preguiças docentes. Mas ali, naquelas pedagogias que sempre criticara é que eu mais crescia. Até com erros grosseiros de pedagogas que queriam inventar a roda, mas que nos – a nós professores – imputavam a forma do quadrado. Os projetos educacionais são bons aliados, quando nos incitam a experimentar, nos questionam, nos desinstalam. Para alunos e professores é bom avançarmos em práticas de aprendizagem que criam maneiras de gestar conhecimento para além do currículo – este sim muito perigoso quando entendido de maneira ingênua. O educando que aprendeu a aprender educa-se na vida, lendo a cultura, absorvendo de maneira críticas os conteúdos curriculares, e unindo tudo isso, transformando informação em conhecimento.
Aposto nos conteúdos clássicos como uma maneira de balizar o conhecimento, no entanto. Desculpem-me por não ser um entusiasta completo do “aprender a aprender”, pois acredito que a crítica da cultura somente é possível quando se conhece a cultura. Neste ponto de equilíbrio é que começo minha crítica ao senhor Newton Duarte. Considero válido o marxismo como argumento hermenêutico, no entanto, o mesmo marxismo nos apresentou um Marx profundamente conhecedor da realidade capitalista e via esta realidade como passível de transformação. Confundir Perrenoud com uma prática alienante e de adaptação ao mundo ruim, (o que criaria sujeitos acríticos e pacatos, inevitavelmente) é o mesmo que infligir tal crítica a Paulo Freire. O conhecimento significativo é aquele que permite o conhecimento integral da realidade circundante, e não “apenas” as competências adaptativas da realidade. As sínteses dialéticas que ocasionam as transformações radicais são apenas possíveis quando se conhece significativamente a tese contextual. Marx conheceu profundamente o capitalismo circundante para criticá-lo. E não adianta apenas mostrar bananas para alfabetizar uma criança como nas clássicas “Ivo viu a uva”, mas permitir o acesso do aluno às frutas.
A sociedade do conhecimento, não é, assim, apenas uma função ideológica, que cumpriria o papel “amansador” do capitalismo. Mas a égide que não nos fez cair na barbárie dos desconsolos. Quando os humanismos prometedores caíram às questões que suscitaram à sociedade do conhecimento eram então garantias mínimas da tolerância e da humanização. As questões ditas “atuais” são tão necessárias quanto à necessidade de se lutar por um mundo melhor. Todavia, porque dizer que os direitos civis são marginais ou criadores de ilusões?
Com isso teria me tornado um “professor iludido” por acreditar na subjetividade, na necessidade da cultura, na democratização do conhecer? Seria um iludido por acreditar em uma História do poder a partir das mentalidades? Jogar-me-ía no lixo como docente, então? Marx ao dizer: “conclamar as pessoas a acabarem com as ilusões acerca de uma situação é conclamá-las a acabarem com uma situação que precisa de ilusões” não nos aportou com o materialismo de todo da ideia. Quero o concreto, mas é possível viver sem ideologias? Resposta de Hume ao cartesianismo: “Se devemos ser sempre presas de erros e ilusões, preferimos que sejam pelo menos naturais e agradáveis”. É... um dia eu ouvi Cazuza...
Diemerson Saquetto
Diemerson, o relato da sua primeira experiencia com a filosofia me fez lembrar dos meus tempos de escola ao vivenciar esta mesma experiência. O contato com a filosofia, com certeza, me fez enxergar as coisas e a vida de um outro modo, a ampliar horizontes. E a ideologia então, quando compreendemos um pouco deste tao abrangente conceito, definitivamente nao conseguimos agir como antes.
ResponderExcluirCritico muito a educaçao atual como a vivenciamos: a forma, o modismo e a falta de profissionalismo (na minha opiniao) da nossa classe.
Como você,nao costumo "vestir camisas" de certos modismos, e gosto de analisar as coisas que me sao apresentadas e, confesso que o texto de Newton me fez refletir sob um angulo novo... Com isso, nao estou discordando ou concordando com ele inteiramente, li e reli várias vezes e ainda o estou "digerindo".
No entanto, ressalto que me chama a atençao que Newton nao se coloca contra, digamos, a essência de uma educação escolar que desenvolva no indivíduo a capacidade e a iniciativa de buscar por si mesmo novos conhecimentos, a autonomia intelectual, a liberdade de pensamento e de expressão(teoria do aprender a aprender), mas critica o posicionamento valoritativo (poderíamos chamar de ideologias?)e as ilusões (o que se faz presente e ainda não vislumbramos?)consideradas por ele presente na metodologia desta pedagogia.
Acredito na boa intenção de Perrenoud, e de tantos outros pensadores, teóricos, professores, educacionais ou não, mas também sei que a ideologia está intríseca nos nossos atos e atitudes e que na grande maioria das vezes nao nos damos conta dela, ou dependemos de que algo ou alguém nos tire o seu véu invisível. Como você mesmo disse: é possível viver sem ideologia? E te pergunto quais estão nos nossos atos e atitudes?
É, sem dúvida, estamos num processo de construçao do conhecimento e com certeza este texto de Newton, independente de concordarmos ou nao com ele, ampliará ainda mais o nosso conhecimento.
Benedita